Coluna

“Um governo tão idiota”

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Não tem manobra ideológica ou defesa midiática que dê jeito: se os termos são esses, o governo é idiota, sim
Não tem manobra ideológica ou defesa midiática que dê jeito: se os termos são esses, o governo é idiota, sim - Beto Barata / PR
Golpismo da imprensa terá generosidade das verbas publicitárias

Não se trata de injúria, mas de confissão. O próprio presidente Temer lançou ao mundo uma negativa retórica, dizendo que o dele não seria “um governo tão idiota que chega ao poder para restringir os direitos dos trabalhadores, para acabar com saúde, acabar com educação”. Não tem manobra ideológica ou defesa midiática que dê jeito: se os termos são esses, o governo é idiota, sim. É só seguir o caminho indicado pelo indignado traidor.
Com relação aos direitos trabalhistas, entre outras afrontas anunciadas sem constrangimento, estão a terceirização irrestrita de todas as atividades e a valorização dos acordos entre patrões e empregados acima da CLT. Ainda no mesmo campo, soma-se a perda da referência do salário mínimo e as novas exigências para a aposentadoria. Ou seja, a retirada de direitos não incide sobre a falácia da necessidade de modernização de relações trabalhistas para aumentar a empregabilidade, mas numa legislação cinquentenária, que consagra conquistas civilizatórias.  As restrições são claras, logo a idiotia também.
No caso da saúde, já se somam várias ações que apontam para diminuição de direitos e retrocessos no campo sanitário, a se tomar como autorizadas as declarações do próprio ministro da pasta. Em primeiro lugar, a crítica da universalização com a defesa de um plano de saúde pobre para pobre. Em seguida, o questionamento do Mais Médicos, seguido dos recuos habituais. Para completar, o congelamento dos investimentos no setor pelo prazo de 20 anos. Um caso em que, além de idiota, o governo se mostra despreparado técnica e politicamente para dar conta de um setor com um acúmulo de conquistas tanto na área da assistência como da gestão e do financiamento.
Em relação à educação, para completar o tríptico de Temer, o governo não pode ser mais idiota. As afrontas foram inúmeras e seu alcance trágico. Desmonte do Conselho Nacional de Educação e, ainda na área institucional, fusão da Ciência e Tecnologia e Inovação à pasta das Comunicações, com entrega a um político sem tradição na área. A comunidade científica viu projetos perderem fôlego e o Ciência sem Fronteiras ser interrompido. O mesmo esforço destrutivo foi observado nos programas voltados para a inclusão no ensino universitário e técnico. Para merecer o carimbo de completo idiota, o ministro da Educação inaugurou sua gestão recebendo um ator de filmes pornográficos e um líder fascista assumido. A recuperação de bandeiras rotas como Escola sem Partido acumulam sopros regressivos nas velas do atraso.
Idiota nas relações trabalhistas, idiota na saúde e idiota na educação, para ficar apenas na pauta do presidente. Não são críticas judicativas, mas constatações. O diagnóstico poderia ainda incorporar outras ações destrutivas, como as do setor da cultura, por exemplo, com a desmontagem de estruturas públicas profissionais, interrupção de programas, demissões em massa, extinção de secretarias, política direcionadas para o mercado em detrimento do interesse público, chegando ao ensaio de censura política com uso finório da classificação etária e patrulha ideológica de filmes como Aquarius.
A vontade de ser idiota segue ainda no programa de privatização e parcerias lançado recentemente, que tenta conjugar o apetite de dois setores ávidos por abocanhar as riquezas do país com patrocínio público. Uma no cravo, outra na ferradura. De um lado, a manutenção da escala de ganhos na ciranda dos juros; de outro, a desmontagem entreguista de setores essenciais. Esse esforço duplamente idiota se completa com o retrocesso avassalador na política externa, com a perda de protagonismo regional, das configurações horizontais com novos mercados em favor da sabujice aos Estados Unidos.
O mais curioso na repreensão lançada por Temer com cenho franzido e tapinhas na mesa é que ela foi seguida, quase imediatamente, pela convocação à defesa do governo por parte de seus integrantes. A senha está dada, os meios de comunicação devem começar a receber em breve sua paga pelos serviços prestados ao golpe na forma de jornalismo de guerra. Podemos esperar campanhas e mais campanhas em defesa da reforma da previdência, de programas de saúde assistencialistas e dos projetos educacionais conservadores, para ficar na pauta do usurpador indignado. Com o álibi de que se trata de informação de interesse público, logo cairão sobre as pessoas uma pesada carga de propaganda. Se a mentira não colar, pelo menos a fatura vai ser paga. A mão torpe do golpismo será lavada com a mão generosa das verbas publicitárias.

 

 

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