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Coluna

A ética dos roedores

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"Não se sabe onde estiveram quando a educação pública foi desmontada, os programas de saúde destruídos e os direitos sociais e trabalhistas limados" - Latuff
Ética dos ratos leva que abandonem o navio diante da possibilidade de que Bolsonaro seja afastado

A toxicidade de Bolsonaro chegou ao limite: até seus defensores de carteirinha buscam agora se afastar dele. Não foi suficiente para colar no presidente como uma mancha moral o passado autoritário, a defesa de torturadores, apelos pela ditadura militar. Ou a militarização das relações de toda ordem, a violência verbal, os maus modos. Nem mesmo o entreguismo, o desprezo com o meio ambiente, a incompetência, comportamento homofóbico e fixação anal. Tudo isso era pouco perto da proximidade com o poder.

Agora a situação parece mudada. Todos traçam linhas de evasão: imprensa dita profissional – que abdicou do profissionalismo durante o golpe contra Dilma Rousseff e a campanha eleitoral do ex-capitão –, governadores alinhados de olho em tratamento preferencial e parlamentares sempre ávidos de cargos portadores de recursos e poder. Seguidos por ignorantes de toda ordem, militares ressentidos do segundo time e falsos profetas da moralidade evangélica e do ultraliberalismo.

Todos eles acreditaram no roteiro prévio e mágico, que indicava um passo atrás na ética para dar dois à frente na ambição. Para aqueles espécimes do arrivismo, Bolsonaro era um frágil espectro facilmente manipulável, que apenas daria a senha para o paraíso prometido do punitivismo, do moralismo inspirado pela revelação e pela sacolinha, da recondução das autoproclamadas elites ao círculo do poder antipopular e da economia de mercado sem o entrave dos direitos.

Hoje, o movimento de debandada exibe sua face incontestável da luta pela sobrevivência, frente ao horizonte de derrocada do projeto neofascista do presidente. O espelho ficou baço, distorcido, feio. De uma hora para outra, pululam democratas, defensores da liberdade, partidários do conhecimento, soldados do SUS e das políticas públicas e até mesmo próceres da descompressão em relação às forças de esquerda.

Não se sabe onde estiveram quando a educação pública foi desmontada, os programas de saúde destruídos e os direitos sociais e trabalhistas limados. No momento em que o investimento público foi contido em favor do setor financeiro, a censura lançou braços na cultura e no saber e o preconceito desagregou conquistas no campo da diversidade, dançavam a festa dos escolhidos.

De forma tolerante e sem conflitos, conviviam com a grosseria, com as afrontas aos negros e às minorias, com a destruição da natureza em nome dos interesses da mineração e do agronegócio. Na hora sombria em que se alardeava a necessidade de armar a população para dar materialidade a seus valores, lançavam mão de um conceito perverso de liberdade pessoal e egoísta. Tampavam o nariz e iam em frente. Uma democracia que respirava por aparelhos.

De repente, o cenário se contaminou com alguns limites inaceitáveis. Como, por exemplo, enfrentar o maior desafio sanitário do século sem um titular no Ministério da Saúde, abdicando da liderança necessária e despontando como a pior resposta do mundo à pandemia. Ou a revelação da proximidade indecente entre a suspeita da criminalidade organizada e o círculo da família do presidente. Onde se mostravam cândidas e historicamente desculpáveis rachadinhas, lê-se a contrapelo a vigência do poder miliciano, inclusive com assassinatos e queimas de arquivo. E, quem sabe, o hábito agora escancarado de afrontar as instituições com ameaças pessoais a magistrados e seus familiares, além do agitar de bandeiras genocidas. Em algum momento, a linha intangível do horror foi ultrapassada.

No entanto, possivelmente, não se trata de nada disso, mesmo porque não estamos distantes do caldo que alimentava o projeto em curso. A capacidade de acomodação dos condôminos do poder passaria facilmente por cima dessas condições. O que, no momento, aparece como maior crime de Bolsonaro é sua fragilidade potencial, a perspectiva de que há condições para que seja afastado do poder e rifado até mesmo pelos militares.

É aí que reside a raiz do comportamento dos que abandonam o navio para preservar suas vidas e consciências sujas. A ética dos ratos. Eles se merecem.

Edição: Elis Almeida