Rio Grande do Sul

OPINIÃO

Artigo | A necessidade de uma educação para chamar de nossa

"Nossa alternativa tem sido preparar os educandos de baixa renda para o ingresso nas universidades via ENEM"

Brasil de Fato | Porto Alegre |
"Uma das preocupações da classe trabalhadora é a educação, e nós, educadores de cursinhos populares já tínhamos essa pauta explícita"
"Uma das preocupações da classe trabalhadora é a educação, e nós, educadores de cursinhos populares já tínhamos essa pauta explícita" - Foto: Divulgação

A quarentena brasileira não traz consigo apenas uma crise gerada pela covid-19, tanto que aqui, nesta América, estão chamando de crise (com!) a covid. Já éramos o continente mais desigual, agora a pandemia expõe uma fragilidade planetária no sistema capitalista (que em sua variante neoliberal destruiu a educação, o trabalho, a saúde e os direitos trabalhistas) e demonstra sua precariedade e sua incapacidade de atender às necessidades mais urgentes e necessárias. Como se não fosse o suficiente, a situação no Brasil se agrava com o governo vigente – não gostaria de chamar de neofascista, neoconservador, neocolonial, entreguista e ultraliberal – que ignora as autoridades e dados científicos.

Uma das preocupações da classe trabalhadora é a educação, e nós, educadores de cursinhos populares já tínhamos essa pauta explícita. Enquanto herdeiros da educação popular, crítica e emancipatória latino-americana, reconhecemos que somos resultado de mudanças históricas e produtivas. Valorizamos os legados de José Martí e Simón Rodríguez para a construção da República e de nosso Paulo Freire, alfabetizador em meio à industrialização latino-americana. Projetos que foram tentativas de encontrar alternativas a seus tempos históricos. E a nossa alternativa tem sido preparar os educandos de baixa renda para o ingresso nas universidades via ENEM. Não apenas trabalhamos os “conteúdos” que são contemplados nas provas, como também visamos trabalhar a autoestima dos educandos, elucidamos a importância e relevância das ações afirmativas (a política de cotas) e desmistificamos a fábula da meritocracia.

Por mais gratificante que seja não vender a hora-aula de trabalho, isso era feito com a perspectiva de ascensão social daqueles que estavam ali aprendendo. Já com o impedimento da Dilma, em 2016, ficamos incertos com o que aconteceria da prova que foi responsável pelo ingresso das classes populares nas universidades brasileiras. Felizmente, nos anos de 2017 e 2018, as mudanças foram só das bancas que formulavam as provas. Houve divulgação e conseguimos preparar os estudantes.

É impossível ignorar o Ministério da Educação do governo vigente. O primeiro, Ricardo Vélez Rodríguez, fez muito barulho para o curto tempo que ficou e não agradou o guru bolsonarista Olavo de Carvalho. O que me espanta, uma vez que para ambos a universidade não é para todos, deveria ser restrita a uma elite intelectual. O segundo, também adepto desta máxima, conseguiu em seus poucos meses fazer a vida dos estudantes (principalmente os universitários) um inferno. Mesmo sendo seguidor de Olavo de Carvalho, não conseguiu ficar no cargo, provavelmente por ter confundido os membros do STF com estudante de humanas, cogitando botar “esses vagabundos” na cadeia. Seguido de sua demissão veio um novo nome, Carlos Alberto Decotelli: o nome ideal haja vista que era da marinha e tinha pós-doutorado. Agora sabemos que é mentira e já temos o quarto ministro, o pastor presbiteriano Milton Ribeiro.

Mesmo não conseguindo digerir tantas demissões e admissões em ministérios durante a quarentena, podemos questionar por qual razão um país que gosta tanto de títulos pode aceitar o completo descaso com uma prova que já mudou a cara das universidades e que, em tese, deveria continuar e não é o que vemos. Por este ministério a prova continuaria em novembro e presencial. Transferir para janeiro (mesmo não sendo a opção dos estudantes que puderam votar na enquete da plataforma online) foi uma conquista dos estudantes que se mobilizaram. E a transferência da data foi tudo o que o ministério fez. Não tratou de fazer um pacto entre governo, estado e municípios traçando um plano para que os estudantes de escolas públicas pudessem ter acesso às aulas e se preparassem. Uma ressalva importante: mesmo os estudantes de escolas privadas estão tendo dificuldades, uma vez que não se aprende a estudar remotamente de maneira tão abrupta.

Ao pensar na contradição de gostar tanto de títulos e não investir nos estudantes, talvez a resposta mais rápida venha da filosofia. Enquanto seres humanos gostamos de estar com aqueles que se parecem conosco, que agem e falam como nós (sim, aqui a origem da xenofobia). Somos animais recíprocos, estamos dispostos a dar sabendo que temos possibilidade de receber. Agora, o que acontece com os que parecem não ter nada interessante para oferecer? Ao pensar nisso, a filósofa espanhola Adela Cortina criou o termo aporofobia (áporo é pobre em grego), que significa “medo dos pobres”. Justifica que é um conceito global e quando não existe nome, não nos damos conta e não percebemos a sua influência. De acordo com ela, quando um ser humano não tem o que oferecer, nós o rejeitamos. Para ela, a aporofobia vai contra a dignidade humana e a democracia.

Esse fenômeno, que antes sequer tinha nome, se faz visível por parte do atual governo em tanto descaso com as políticas de saúde, de morte e até com o ENEM. Não basta deixar claro que querem apenas uma elite intelectual nas universidades. Temos o nome, sabemos que é o nosso governo. E agora? Independentemente de quem seja o novo ministro e quais seus títulos (verdadeiros ou não) o intuito é explicitar a diferença entre a suposta elite intelectual e as classes populares, legitimando o tratamento diferenciado das suas demandas, uma vez que o governo não considera o povo como seu par, e não pretende atender as suas pautas. Somos nós por nós.

A boa notícia é a existência da neuroplasticidade, nosso cérebro não é só capaz de aprender outras línguas depois de adultos como também de mudar caráter, tendências e predisposições. Somos capazes ainda de mudar a lógica do capital. E aqui entra o que já fazíamos na educação popular. Esta que faz com que nos reconheçamos como sujeitos oprimidos para nos constituirmos em sujeitos políticos revolucionários, visando construir desde a educação uma sociedade questionadora das relações estabelecidas. Sabemos que somos uma educação que está destinada a formar sujeitos políticos para a transformação social, desde o amor, compromisso e diálogo. Inclusive, podemos aceitar a sugestão da escritora canadense Naomi Klein de desenvolver novas ferramentas de desobediência civil que nos permita atuar à distância e criar nossos próprios ecossistemas digitais, livres e críticos como resistência midiática.

* Valentinne Serpa é doutoranda em Filosofia, militante do Levante Popular da Juventude e educadora popular

Edição: Marcelo Ferreira