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Editorial | Um Bolsonaro piorado

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"Um jornal inteiro seria pouco para inventariar a herança maldita dos quatro anos de Bolsozema" - Foto: Alan Santos/PR
Que a luta do povo nos livre desse pesadelo!

Se alguém acha que o fundo do poço foi o país ter sido governado por um miliciano contrabandista de joias, que brincava em motociatas enquanto milhões passavam fome, que torrava dinheiro com pastores e generais enquanto o Brasil perdia 700 mil vidas na pandemia, o buraco é ainda mais embaixo. Quando o assunto é governo, em Minas Gerais, tudo pode ser um pouco pior.

A bem da verdade, Zema e Bolsonaro representam o mesmo projeto político. Os dois foram eleitos em 2018 pela intervenção do poder econômico. Sua missão era acabar com o patrimônio do país, entregando as estatais para estrangeiros, acabar com o serviço público, destruindo a estabilidade dos servidores e a gratuidade das políticas públicas, e transformar a gestão pública em ferramenta de acumulação de capital para grandes empresários, banqueiros e especuladores internacionais.

Foi nessa brincadeira que, em 2022, o país pagou R$ 18,5 mil por segundo em juros da dívida federal (R$ 586,4 bilhões no ano), enquanto cortava recursos de áreas importantes, como saúde, educação, moradia e pesquisa científica. A gigantesca Eletrobras foi entregue a preço de banana e o metrô de BH, com mais de R$ 3 bi em novos investimentos públicos, passou praticamente de graça para as mãos de empresários de ônibus. A mineração tomou conta dos territórios em todo o estado. Sem comida na mesa, os trabalhadores comeram o pão que o diabo amassou, com baixos salários, inflação nas alturas e o setor público sucateado. Um jornal inteiro seria pouco para inventariar a herança maldita dos quatro anos de Bolsozema.

Bolsonaro serviu a quem realmente manda no país, aqueles velhos donos do dinheiro, das terras, da mídia e do poder. Aquela gente que o ajudou a chegar ao governo prendendo Lula e fraudando a eleição presidencial de 2018. Verdade seja dita: crime é o que não falta para botá-lo na cadeia.

O sonho de Zema é fazer de Minas Gerais uma grande empresa a serviço de outras grandes empresas

Quando as eleições de 2018 começaram, Bolsonaro não era, mas acabou se transformando na opção da burguesia. Ele se impôs construindo uma base social muito grande, na escala de milhões, e muito radicalizada. Tudo graças à agitação do conservadorismo, da aversão à diversidade e a qualquer avanço na sociedade.

No governo, Bolsonaro queria multiplicar seus apoiadores e ampliar poderes para – quem sabe – dar um golpe com o apoio das Forças Armadas. Ledo engano. Passou o mandato tendo que buscar o difícil equilíbrio entre atender aos interesses de seu deus mercado, acima de todos, e angariar milhões de apoiadores. Como agitar o conservadorismo não era o bastante, a contragosto, cedeu na questão do auxílio emergencial, entre outras reivindicações. Nas eleições, instrumentalizou o orçamento público para comprar votos.

Zema pode vir a ser o Bolsonaro que “deu certo”

Zema, por outro lado, não é um empregado, mas sócio dos donos do dinheiro. Sócio menor, subalterno, porém, sócio. Zema no governo é o próprio poder econômico na tarefa de governar. Qualquer assalariado com bom senso sabe que não existe nada tão autoritário quanto o proprietário de uma grande empresa: o patrão manda, o empregado obedece ou vai para o olho da rua.

Democracia e empresa capitalista são como água e óleo. O sonho de Zema é fazer de Minas Gerais uma grande empresa a serviço de outras grandes empresas, com a mídia, com o Judiciário, com tudo a favor.

Todos os dias, prova ter mais jeito para a tarefa do que Bolsonaro. O mais recente arroubo autoritário é a tentativa de retirar a participação popular da construção do orçamento estadual. Mais grave ainda é a multa de R$ 3 milhões imposta ao Sind-UTE/MG, o maior sindicato do estado, com uma categoria de mais 200 mil trabalhadores da educação. O objetivo é menos a cobrança da multa do que acabar com a luta sindical. E o que dizer da censura ao espetáculo m.a.n.i.f.e.s.t.a? A lista não acaba aí.

Hoje, parte da burguesia já vê Minas Gerais como laboratório do Brasil. E o Brasil que se cuide, pois, em bom mineirês, 2026 é logo ali. Para as mineradoras, os banqueiros e os demais sanguessugas do mercado, Zema pode vir a ser o Bolsonaro que “deu certo”.

Que a luta do povo nos livre desse pesadelo!

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Edição: Elis Almeida