Rio Grande do Sul

INSEGURANÇA

Especialistas ligam armamentismo, discurso de ódio e bullying aos ataques nas escolas

Para eles, os agressores reagem contra o ambiente escolar em que foram também vítimas de violência 

Brasil de Fato | Porto Alegre |
"Os sujeitos, na prática, tornam-se violentos em processo de cooptação pela extrema direita", aponta relatório
"Os sujeitos, na prática, tornam-se violentos em processo de cooptação pela extrema direita", aponta relatório - José Eduardo Bernardes

Uma criança, leva uma arma branca para escola, indagada sobre o motivo de trazer a faca para escola, a criança responde, "se proteger”. Aconteceu em uma escola da rede estadual de São Leopoldo, região Metropolitana de Porto Alegre. 

Não é um caso isolado. Relatos similares têm se espalhado no Rio Grande do Sul, sempre fomentados e estimulados pelas redes sociais.

São episódios que refletem o medo e a insegurança que eclodiram nas últimas semanas no país após os casos extremos de violência em instituições de ensino, especialmente nos estados de São Paulo e Santa Catarina.  

Diante disso, os poderes públicos federal, estaduais e municipais adotaram medidas para prevenir e denunciar casos. O Brasil de Fato RS ouviu especialistas sobre o tema.

Segundo levantamento da Unicamp, foram registrados no país, nos últimos 21 anos, 22 ataques, sendo que quase a metade - 10 – ocorreu em 2022 e 2023. De acordo com o relatório "O extremismo de direita entre adolescentes e jovens no Brasil: ataques às escolas e alternativas para a ação governamental", desde o início dos anos 2000 ocorreram 16 agressões armadas, das quais quatro no segundo semestre de 2022. Ao todo, 35 pessoas morreram e 72 sofreram ferimentos.

“Nos últimos anos, o Brasil cultuou um discurso de ódio à diferença”

“A escola é reflexo da sociedade onde ela está inserida, e quando a gente olha para nosso país, é claro que há nuances entre um estado e outro, entre uma região e outra, mas é um país violento de várias formas”, afirma o psicólogo e conselheiro do Conselho Regional de Psicologia/RS, Jean Von Hohendorff. 

“O próprio estado brasileiro – continua – é extremamente violento com pessoas ao não garantir direitos básicos de sobrevivência”. Ele coordena o grupo de pesquisa VIA Redes (Violência, infância, adolescência e atuação das redes de proteção e de atendimento) na Atitus Educação. 

Hohendorff repara que, nos últimos anos, o Brasil cultuou a violência através de um discurso profundo, arraigado e difundido de ódio à diferença. “Aquelas pessoas que não estão dentro daquele padrão que se ´vende` como o adequado, fogem de um padrão de corpo - se é gorda, é ridicularizada na escola; se é negra, sofre racismo, se é uma criança que não está de acordo com os padrões hegemônicos de gênero - também sofre uma violência na escola”. 

“Crianças são ensinadas a manejar conflitos por meio da violência”

Pesquisadores apontam que os agressores são, em geral, jovens, de 10 a 25 anos, e do sexo masculino. E muitos deles são vítimas de bullying, possuem características de isolamento social e indícios de transtornos mentais não diagnosticados ou acompanhados.

Pioneiro no país, o relatório destaca que casos de ataques com armas de fogo nas escolas são praticados por alunos e ex-alunos, em geral, são normalmente associados ao bullying e à situações prolongadas de exposição a processos violentos, incluindo negligência familiar, autoritarismo parental e conteúdo disseminado em redes sociais e aplicativos de trocas de mensagem. 

“Os sujeitos, na prática, tornam-se violentos em processo de cooptação pela extrema direita e, ao seguirem rumo aos ataques (seja com uso de armas de fogo, armas brancas ou depredação do patrimônio), procuram a escola com desejo condicionado por associarem-na às condições de exposição”, aponta o texto.

Complementando o que foi levantado no relatório, Hohendorff, aponta que geralmente são homens brancos. “Eles acabam se revoltando contra o ambiente escolar, porque aquele ambiente, durante o seu desenvolvimento, foi violento com eles. Eles não se encaixavam nesse padrão hegemônico e tóxico de masculinidade. Acabam se vendo numa situação em que não conseguem performar essa masculinidade de ser o machão. Acabam sendo ridicularizados por isso se demonstrarem qualquer “fraqueza” e não sabem o que fazer com isso”, detalha o psicólogo, pontuando que esses problemas não foram vistos com a atenção necessária. 

“Essas pessoas tendem a vir de contextos em que já existe violência, violência familiar, violência no bairro. E lembrando que no nosso país, por exemplo, a violência é cultuada enquanto um valor social. A gente ensina as crianças que elas devem manejar conflitos por meio da violência. Vivemos em uma sociedade em que a gente é analfabeto emocional. Não estamos preparados para lidar com emoções” complementa. 

“A presença de seguranças armados não inibirá a ação dos agressores”

Sem registro de episódios de violência extrema, o Rio Grande do Sul tem apresentado ameaças descobertas pela polícia civil, como mostram os casos em Maquiné e Santa Maria. Por meio do Gabinete de Inteligência e Assuntos Estratégicos (GIE), a chefia de polícia coordena uma força-tarefa que abarca diversos órgãos da instituição para o enfrentamento aos ataques nas escolas. O GIE é responsável pelo monitoramento de casos e denúncias. Quando há um registro de ocorrência de um caso concreto em escolas, o órgão encaminha para as delegacias da Divisão Especial da Criança e Adolescente (Deca), que faz parte do Departamento Estadual de Proteção a Grupos Vulneráveis (DPGV). Em cidades que não possuem uma delegacia da Deca, as investigações são repassadas às delegacias locais.

Com o objetivo de combater possíveis casos de violência no estado, prefeituras como a de Porto Alegre, colocaram botão do pânico nas escolas. Outras investiram na segurança dentro dos estabelecimentos com a presença de agentes.

Citando um estudo americano, Hohendorff diz que a presença de seguranças armados não inibirá a ação dos agressores. O mesmo vale para as câmeras de vídeo. Entende que, muitas vezes, as pessoas que cometem atos de violência querem essa visibilidade. “Precisamos, se quisermos combater esses casos e ter segurança na escola, criar uma sociedade segura”, argumenta.

Para a socióloga e especialista em segurança pública e prevenção à violência nas escolas, Aline Kerber, medidas como botão do pânico caem na questão de somente responder ao medo, a sensação de insegurança que está elevada. “É uma perspectiva reducionista, que reforça essa lógica de armamento, de violência. Precisa compor um conjunto, uma abordagem mais ampla, integrada com segurança pública voltada para resultados”, diz ela que também atua na Associação Mães e Pais pela Democracia. 

Na sua visão, a segurança pública no estado tem muitas fragilidades, citando problemas estruturais da sociedade, como a misoginia e o racismo. 

“Temos um cenário de desqualificação dos professores, de perseguição, de patrulhamento ideológico em uma ideia delirante de que existiria uma ideologia de gênero. Aí entra a ´escola sem partido`, escola cívico-militar, homescholling. É nesse cenário de estimulo à cultura bélica, que é uma marca do último governo, onde tivemos o aumento de mais de 500% na população CAC (Caçadores, atiradores e colecionadores) autorizada a usar armas de 2018 para 2022, que vem os ataques.”

Aline também chama atenção para os casos de violência contra as crianças e adolescentes no país. De acordo com a última edição do Anuário de Segurança Pública, do  Fórum Brasileiro de Segurança Pública, apenas entre 2016 e 2020, 35 mil crianças e adolescentes de até 19 anos foram mortos de forma violenta no país. 

“Precisamos olhar as redes mas, quando se fala em marco regulatório da internet, as pessoas não querem” 

Nos últimos dias, supostas ameaças que ocorreriam no dia 20 abril (data de nascimento de Hitler e aniversário de 24 anos do massacre de alunos em Columbine, nos Estados Unidos) preocupam alunos, pais e professores. Todas as publicações envolvendo o assunto estão sendo monitoradas e acompanhadas pela polícia em ação conjunta com procuradores e agentes do Ministério da Justiça e da Segurança Pública.

Tanto a socióloga quanto o psicólogo destacam o papel das redes sociais na questão da violência. "São difundidos em redes sociais conteúdos que, embora ditos de liberdade de expressão, são, na verdade, discursos de ódio, inclusive com apologia ao nazismo e à supremacia branca", observa Hohendorff. "Temos que olhar para isso. Não tem como fugir dessa discussão", reforça, acentuando que, através das redes, ganha-se notoriedade, o que estimula outros casos. “Precisamos olhar as redes sociais. Mas, quando se fala em marco regulatório da internet, as pessoas não querem", critica. 

Aline acrescenta também os aliciadores digitais que cooptam jovens através da misoginia e do racismo, nas redes sociais, seja na chamada deep web, como na superfície. Avalia que é preciso fortalecer o policiamento nas redes e em sites, fóruns, chats, que não estão só no submundo, estão também em jogos como Fortnite e Minecraft, entre outros. “Em todos esses aparecem os discursos de ódio supremacistas, misoginia e racismo”, assinala.

Para os especialistas a situação é muito complexa, assim como sua solução. Será preciso olhar para muitas questões da sociedade: entender os jovens que sofrem bullying, entender os transtornos psiquiátricos, os problemas interpessoais, os jovens que cultuam símbolos nazistas e que se sentem pertencentes a esse submundo da internet.  

Prevenir a violência começaria por uma educação crítica de combate à desinformação. “Estamos vendo como a desinformação tem poder. Causa medo, paralisa, e nos traz soluções que reforçam esse modelo de violência, de armas, de segurança individual, que não resolvem”, diz Aline. 

Observatórios de segurança escolar poderiam ser um caminho

“Sabemos – prossegue - que o que funciona do ponto de vista da segurança pública voltada para a prevenção social e situacional das violências, é trabalhar com gestão da informação”. Ela sugere a criação de observatórios da segurança escolar, que poderia ter em cada escola junto a um núcleo de mediação de conflitos ou de práticas restaurativas. 

“Esse observatório que pode ser da escola, mas também do município, pode construir essa política e induzir um policiamento baseado em evidências, cruzando indicadores criminais, indicadores de violência, trabalhando riscos reais e ampliando essa noção do que seria violência na escola”, exemplifica. 

Recomenda ainda a busca ativa dos alunos com baixa frequência ou evadidos, a articulação com o sistema de proteção, conselho tutelar, ministério público, guarda municipal etc. “Todos envolvidos numa estratégia articulada, integrada, integral, ajudando a prevenir essas situações. Uniforme é uma medida básica de proteção e pode ajudar nesse controle de acessos”, comenta.

Acrescenta a implantação de uma educação crítica voltada aos direitos humanos “tema proibido nos últimos quatro anos”, e distante “desse patrulhamento ideológico e desse modelo da pedagogia do quartel imposta pelas escolas cívico-militares, escola-sem-partido”.  


Professores protestam contra a violência nas escolas em São Paulo / Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

“A gente vem de uma apologia à violência e as armas. Estamos colhendo as consequências” 

“Estamos disputando uma escola voltada à vida, que supere a banalização da morte e garanta uma gestão democrática. Isso vai prevenir essas atrocidades. Uma escola aberta, que tenha clima de diálogo”, propõe. “A violência na escola nasce do emparedamento do gesto da palavra. Quando não é possível falar, quando não se é visto, quando não se pertence. É daí que nasce a violência e também a criminalidade. Quarenta por cento daqueles que praticam bullying na escola, na vida adulta, segundo pesquisas americanas, ingressam na criminalidade. Não é pouca coisa”, complementa. 

Para Hohendorff, é preciso romper com a lógica de individualizar apenas e ter um olhar para a sociedade, que produz pessoas cada vez mais violentas. “Novamente, a gente vem de um período de uma apologia muito grande à violência e às armas. Estamos colhendo as consequências nefastas disso”. 

Ele explica que sempre faz um convite para as pessoas que estarrecidas em relação ao que aconteceu e está acontecendo. “Se elas querem mudança, vão precisar revisar as suas próprias crenças pessoais, aquilo que defendem ou não defendem”, diz. E detalha: “Não trabalhar gênero nas escolas, não trabalhar a diversidade nas escolas, não trabalhar a boa formação de profissionais, não trabalhar o respeito ao próximo, não trabalhar os direitos humanos, incentivar discursos de ódio e de armamento da população só vai aumentar esses casos”. 

O psicólogo destaca ainda a necessidade de focar na formação crítica dos profissionais que trabalham com crianças. Afirma que, alguns deles, reproduzem essa lógica de violências com quem é diferente, não está no padrão dito ideal de corpo, de gênero, de cor de pele, enfim. 

Representante da categoria dos professores públicos estaduais, o CPERS Sindicato também relaciona a escalada da violência no espaço escolar como um “reflexo imediato da flexibilização das políticas de acesso a armas e do aumento do discurso de ódio, perpetrado nos últimos quatro anos pelo governo Bolsonaro (PL), e que precisa ser interrompido”.

Os caminhos para denunciar as ameaças e os ataques às escolas

Os chefes dos podes Executivo, Legislativo e Judiciário, mais 27 governadores, além de prefeitos, ministros e secretários estaduais se reuniram no dia 18, no Palácio do Planalto, para anunciar um pacote de medidas para prevenir a violência nas escolas.

Durante o encontro, o ministro Flávio Dino, da Justiça e Segurança Pública, informou que 225 pessoas já foram presas ou apreendidas nos últimos dez dias, por incentivarem, colaborarem ou elaborarem planos de ataques a escolas em todo o país.

Também 756 perfis em diferentes redes sociais foram retirados da internet, 694 adultos e adolescentes intimados para depor e expedidos 155 mandatos de busca e apreensão.

O governo Lula anunciou um pacote de R$ 3,1 bilhões para ações nas escolas contra os ataques e ameaças. Do total, o Ministério da Educação antecipou R$ 1,097 bi da parcela de setembro do Programa Direto na Escola para investimentos em melhorias. Também comunicou a liberação de outros R$ 1,8 bi para as escolas.

Foi criado o canal Escola Segura para o recebimento de informações sobre possíveis ameaças e ataques. As denúncias podem ser feitas pelo site http://mj.gov.br/escolasegura. E a polícia pode ser acessada através do WhatsApp (51) 98444-0606 e pelos telefones 197 e 181.
  
No estado, a Brigada Militar reforçou o patrulhamento em áreas estratégicas. Desde o ataque a uma escola infantil em Santa Catarina, na semana passada, o Departamento de Inteligência da Segurança Pública (DISP) e as forças de segurança monitoram o tema.  

Nos últimos dias, o CPERS voltou a insistir em uma reunião com o governador Eduardo Leite (PSDB). Observa que, desde o fim de março, cobra uma audiência para tratar da segurança de professores, funcionários e alunos. Sustenta que, indiretamente, outro ponto que influencia o aumento da violência reside no fato de que os últimos governos estaduais diminuíram a presença de orientadores pedagógicos, supervisores e monitores nas escolas. Explica que são tais funcionários que ajudam a identificar aqueles casos que merecem atenção antes que o problema aconteça.


:: Clique aqui para receber notícias do Brasil de Fato RS no seu Whatsapp ::

 

Edição: Ayrton Centeno