Minas Gerais

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Produtoras de café de MG representam 10% de todos os casos da lista de trabalho escravo no país

Fazendas certificadas e relação de empregadores com prefeituras também chamam atenção em lista suja

Belo Horizonte (MG) | Brasil de Fato MG |
O trabalho análogo a escravidão no Brasil é estrutural e vai além de casos isolados - Foto: Emater / Divulgação

No início deste mês a lista suja de empregadores denunciados por práticas de trabalho em condições análogas à escravidão foi atualizada. Os números, apesar de alarmantes, trazem um dado recorrente: Minas Gerais lidera o ranking da vergonha.

Entre as empresas e empregadores listados, encontramos empreendimentos que se intitulam como sustentáveis ou comprometidos com práticas positivas, como o reflorestamento.

Caso com maior número de resgatados ocorreu em Buritizeiro

Entre os denunciados está, por exemplo, o cafeicultor Guilherme Sodré Alckmin Júnior. O empresário, que já foi homenageado como cidadão honorário de Heliodora, no Sul do estado, é certificado como produtor orgânico, no cadastro nacional brasileiro. No entanto, na Fazenda Floresta, de propriedade de Sodré, 20 trabalhadores foram resgatados. No local, os funcionários dormiam em condições precárias e tinham que pagar para usar equipamentos de trabalho e insumos como botas, luvas, alimentação e gás. O caso não é exclusivo.

Jorge Ferreira dos Santos, um dos coordenadores da Articulação dos Empregados Rurais (Adere-MG), ressalta que somente a produção de café em Minas Gerais representa 10% de todos os casos da lista suja do trabalho escravo no país.  “A cadeia produtiva do café é extremamente irresponsável com os direitos dos trabalhadores e deve ser penalizada e responsabilizada por essas violações. Uma cadeia produtiva, onde na sua origem persiste um dado tão significativo de trabalho escravo não é qualquer coisa”, denuncia.

Relação com prefeituras

Alguns empregadores flagrados pelo Ministério do Trabalho mantêm relações diretas ou indiretas com prefeituras mineiras. Em Viçosa, na Zona da Mata, onze trabalhadores que prestavam serviço a uma empresa terceirizada pela prefeitura para a construção de uma creche municipal foram resgatados.

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Outro nome listado é o de Wagner Arthur Gonçalves dos Santos, proprietário da fazenda Mesas, produtora de café. Mesmo após ser flagrado pelos auditores fiscais, Wagner foi nomeado para o cargo de chefe do Departamento de Planejamento, Gestão e Potencialização da Indústria e Comércio na Secretaria Municipal de Agricultura, Pecuária, Abastecimento, Indústria e Comércio de Campos Altos, no triângulo mineiro. Em sua propriedade, 34 trabalhadores foram resgatados. Uma reportagem veiculada em 2022, pelo site Repórter Brasil, denunciou também que durante a pandemia, o fazendeiro recebeu mais de R$5 mil em auxílio emergencial.

Norte de MG

Além dos casos no Sul de MG com a produção de café, outra região de destaque nas denúncias é o norte. O caso onde foram resgatados o maior número de trabalhadores em Minas Gerais, ocorreu na Fazenda Agrícola Minas Norte, em Buritizeiro, onde 46 trabalhadores estavam em condições análogas à escravidão. Em Matias Cardoso, Montes Claros, Pirapora, Taiobeiras, Ninheira, São João da Lagoa, Claro dos Poções, Jequitaí, Coração de Jesus e Águas Vermelhas, também há casos de violações.


Operações de resgate de  pessoas em condições de trabalho análogo à escravidão se tornou frequente no Brasil. Foto: Divulgação MPR-RS

Para a deputada estadual Leninha (PT), representante do território, a situação também é reflexo da falta de políticas públicas estaduais de promoção do pleno emprego e de geração de renda.

"Estamos articuladando na ALMG, em conjunto com outros mandatos, a criação da Frente Parlamentar para o Combate ao Trabalho em Condições Análogas à Escravidão”, explica a parlamentar. “Se o governo do estado não apoia o acesso ao crédito de forma desburocratizada, que faça o combate e o enfrentamento à violência do trabalho escravo, são os dois lados da mesma moeda”, critica.

Para denunciar

Para denunciar casos de trabalhadores em situação análoga à escravidão, basta acessar a página do Ministério do Trabalho. As denúncias podem ocorrer de forma anônima, clique aqui e saiba mais.

 

Edição: Elis Almeida