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Artigo | Israel, Palestina e Brasil: do ódio e dos corvos criados

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Imagem ilustrativa - Foto: Pixabay
Em 1964, direita liberal achou que militares voltariam aos quartéis. Não voltaram

Os conflitos entre palestinos e israelenses são resultado de uma situação de ódio mútuo que parece não ter fim.

Raiva, ódio, fazem parte da vida humana. Não é bom nem agradável, mas é um fato da vida. Que nem por isso deve ser incentivado - pelo contrário.

No Brasil atual incentiva-se o ódio. É o combustível da máquina de desinformação da extrema direita, que captura pessoas vulneráveis e as adoece. Verdadeira lavagem cerebral. Verdadeiro crime.

Nos esgotos das redes sociais de extrema direita, comemora-se o assassinato do médico irmão da deputada do PSOL Sâmia Bonfim, e chega-se a lamentar ela não ter sido morta também.

Em 2015, no auge do antipetismo, extremistas foram ao velório de José Eduardo Dutra, ex-ministro de Dilma, e estamparam a faixa: "petista bom é petista morto". Na mesma época, Guido Mantega foi hostilizado ao visitar a esposa, doente com câncer terminal, em um hospital de São Paulo. E num voto pelo impeachment de Dilma Rousseff o torturador dela foi lembrado e elogiado.

Nestas e em outras situações absurdas, a mídia empresarial - unida momentaneamente aos chuta-portas da extrema direita no propósito de derrubar o PT - passou pano, normalizou a brutalidade, chamando as ações de "protestos vindos da revolta do povo contra Dilma".

Dei uma entrevista ao Brasil de Fato, em 2016, advertindo que a mídia empresarial e outros representantes da direita liberal-conservadora, mas não necessariamente fascista, deviam tomar cuidado ao se aliar a esses chuta-portas da extrema direita. Alertei que era ingenuidade achar que, depois de cumprirem o seu trabalho sujo, iriam voltar quietinhos para casa.

Lembrei que, antes de 1964, Lacerda e outros da UDN e da direita liberal clamavam pelos militares, supondo que eles interviriam pontualmente, tirariam a esquerda e voltariam aos quartéis logo depois. Quebraram a cara.

Em 2018, o representante do ódio, dos chuta-portas, foi eleito. E escorraçou a mídia comercial tradicional e a direita liberal, apesar de todos os acenos de paz que recebeu delas. E, junto com seus seguidores aloprados, habitantes de uma realidade paralela encharcada de rancor e mentira, só não deram o golpe na democracia porque não conseguiram. Mas foi por pouco, e a ameaça continua.

“Cria cuervos y te sacarán los ojos”, diz um ditado espanhol

Em tempo: o Hamas já estava na Palestina desde 1940, mas na década de 1980 foi incentivado por Israel, para fragmentar o movimento palestino, contrapondo-se à OLP, de Arafat, então grande inimigo dos israelenses.

O Hamas tinha uma orientação religiosa, assistencialista e, a princípio, apolítica, enquanto o grupo de Arafat era laico e de tendências socializantes.

E lembrando que Bin Laden foi, também, no início, nutrido pelos EUA.

Há vários outros exemplos históricos, mas parece que não se aprende.

Cria cuevos y...

Rubens Goyatá Campante é doutor em Sociologia pela UFMG e pesquisador do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (Cerbras).

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Leia outros artigos de Rubens Goyatá Campante em sua coluna no Brasil de Fato MG

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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

Edição: Elis Almeida