Minas Gerais

Coluna

Passeios, paisagens e histórias

Imagem de perfil do Colunistaesd
Lagoa da Pampulha-BH/MG - Foto: Luciano Mendes
Destruição das Minas começou há cerca de 350 anos

Nesta passagem de ano, minha companheira e eu resolvemos passear por Belo Horizonte e algumas cidades mineiras. Na capital mineira, (re)exploramos lugares tradicionais e dos quais gostamos muito: o Parque Municipal, a Praça da Liberdade, os Mercados, a Pampulha.  Pelas Minas, fomos à Gruta da Lapinha, ao Caraça, à Serra do Cipó, a Conceição do Mato Dentro, ao Serro, a Milho Verde, a Ouro Preto e Ouro Branco.

Depois dos passeios, todos regados a boas cachaças mineiras e cervejas artesanais, sempre que possível, reafirmo a convicção de que as Minas são muitas e bonitas. As paisagens e as pessoas estão a nos surpreender a cada serra ou a cada esquina. Des-cansar por aqui é das melhores coisas da vida!

Desigualdade

No entanto, é impossível perambular pelas ruas e estradas e não perceber os rastros de destruição e as desigualdades que marcam esses territórios. As minas avançam e as Minas tendem a acabar, pelo menos da forma como nós as conhecemos hoje. Nascentes, rios, cachoeiras, estradas... tudo tem sido destruído pela mineração, mesmo nos poucos territórios em que o capital não pode tocar as mãos e pôr no bolso.

As populações e os territórios somos todos interdependentes!

Hoje, mais do que nunca, a destruição das paisagens e dos territórios é parte da história.  Sabemos que a ocupação desses territórios é muito longeva – basta lembrar que a Luzia tem mais de 12 mil anos! –, e que a destruição das Minas começou há cerca de 350 anos. Mas a aceleração da ação degradante da população humana sobre as paisagens e as demais populações é muito visível e chocante.

Falta de informações

A esse respeito, é notável também o quanto as cidades e instituições que organizam o trânsito de visitantes pouco assimilaram, até o momento, a ideia de que a natureza é história. De um modo geral, há muita pouca informação para os visitantes.

Mesmo em museus, igrejas e espaços melhor organizados, muitas vezes a gente não tem informações mínimas sobre o que está exposto.  E, como tivemos experiência, nem sempre os “guias” são capazes de nos darem informações sobre monumentos e paisagens!

Se, mesmo nos lugares de memória institucionalizados e controlados, são escassas as informações, quando se trata dos espaços abertos dessas mesmas instituições, das cidades e das paisagens, as informações praticamente desaparecem.

É como se os cursos de água mudados ou secados pela ação humana, as árvores que ornamentam ou compõem os jardins e paisagens, e mesmo os jardins belamente construídos e conservados não fizessem parte da história.


Engenho Massangana – Cabo de Santo Agostinho/PE / Foto: Reprodução/ Engenho Massangana

Essa é, infelizmente, uma tendência geral. Há alguns anos, visitando o conjunto arquitetônico do Engenho Massangana, situado no Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, foi onde senti isso muito forte pela primeira vez. O engenho foi notabilizado por Joaquim Nabuco ter vivido ali parte de sua infância. O conjunto é composto sobretudo pela Casa Grande, pela Capela de São Mateus e por um vasto território de 10 hectares.

As pessoas são bem recebidas e há muitas informações sobre as construções e as populações humanas que as habitavam. No entanto, chamou a minha atenção o fato de que sobre as imensas palmeiras que compõem a paisagem e que ladeiam o caminho da Casa Grande até a Capela, nada se fala, nada se informa. Sobre elas não há texto legíveis para a pessoa que visita o local. É como se elas simplesmente fizessem parte da “natureza” e, como tal, não tivessem história e não participassem da história.

Ora, sabemos que a natureza é história. E esse é, sem dúvida, um dos grandes ensinamentos das populações ancestrais: não pensar de forma dicotômica o humano e o não humano, a natureza e a história como se fossem coisa distintas e separadas. Ou aprendemos essa lição, e muitas outras, ou não haverá como impedir o fim do mundo.

Urge, pois, retomarmos das Minas e dos Gerais as estradas e, com as populações que habitam esses territórios e compõem essas paisagens, construirmos uma história de acolhimento e preservação. E isso passa, sem dúvida, por não deixarmos a “natureza” à beira do caminho, fora da história.

 

Luciano Mendes de Faria Filho é pedagogo e doutor em Educação e professor titular da UFMG. Publicou, dentre outros, “Uma brasiliana para a América Hispânica – a editora Fondo de Cultura Econômica e a intelectualidade brasileira” (Paco Editorial, 2021)

---

Leia outros artigos de Luciano Mendes de Faria Filho na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato MG

---

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Edição: Elis Almeida