Minas Gerais

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Mulheres são as principais vítimas dos crimes em Brumadinho e Mariana

São elas as encarregadas de colocar o balde na cabeça para buscar água ou acompanhar o familiar até o posto de saúde

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG) |
"Mulheres atingidas por barragens são resistência e entre todas as dificuldades, garantem na luta o acesso aos seus direitos, que elas sabem muito bem quais são" - Fernanda Abdo

Já se foram mais de um ano do crime da Vale na bacia do rio Paraopeba. E o que marca o dia a dia da vida das mulheres atingidas pelo rompimento da Barragem Córrego do Feijão em Brumadinho é luta. É luta por trabalho, por água potável, pela saúde da família, dos filhos, pais e companheiros. Luta diária contra as violações da criminosa Vale, que ataca os direitos pela reparação, indenização e de reconstrução da vida.

São relatos de contaminação, doenças de pele, mal estar, aumento do uso de drogas e álcool, dificuldade de acesso ao trabalho, falta de água potável e limpa para o consumo, depressão e instabilidade psicológica.

É por isso que as mulheres são as principais vítimas dos rompimentos de barragem no Brasil e no mundo. São as mulheres que provém os cuidados da casa e da família. São elas as encarregadas de colocar o balde na cabeça na hora de buscar água potável ou de acompanhar o familiar até o posto de saúde.

Mas a falta de água é apenas um dos direitos básicos negados as mulheres. Os problemas de saúde gerados pelos crimes de mineração estão entre os principais dificuldades sofridas pelas atingidas. Responsabilizadas pelos cuidados com a família, elas sofrem com os problemas no acesso às políticas públicas, cada dia mais sucateadas com o atual governo no Brasil.

Há um desmonte no SUS, precarização do trabalho e o fim da aposentadoria. Falta investimento em educação, ao mesmo tempo que assistimos ao aumento do custo de vida, principalmente da energia e do gás de cozinha. Ou seja, enquanto o pai não encontra o médico no posto, a mãe não ganha mais aposentadoria, o marido perdeu o emprego e o filho tem dificuldades de acessar a escola. Tudo isso reflete diretamente na saúde das mulheres atingidas, por que a saúde aqui é muito mais que médico, remédios e exames. Ela passa pelo bem estar emocional, segurança financeira, garantia do trabalho, estabilidade da família, garantia do peixe pescado no rio ou das plantações que davam nas margens.

Em comparação ao crime da Vale, Samarco e BHP Billiton na bacia do rio Doce, há quatro anos, o município de Brumadinho é o que mais reflete casos graves de adoecimento mental. Considerado o maior crime trabalhista do país, o grande número de mortes também contribui na instabilidade emocional coletiva. No município praticamente todos os sobreviventes conheciam pelo menos uma vítima fatal do crime.

Mas a dificuldade da mulher atingida não aparece somente quando a barragem rompe. O mesmo ocorre com construções de grandes empreendimentos ou ameaças de instabilidade. As mulheres atingidas pela barragem Casa de Pedra da CSN em Congonhas-MG, por exemplo, estão há 7 meses sem os filhos nas creches, e tendo de garantir o dobro do deslocamento dos filhos mais velhos para frequentar a escola. Tudo isso pela insegurança da barragem que está localizada em cima do bairro residencial.

Essa é a condição do nosso modelo social capitalista. As grandes empresas exploram, violam os direitos e trazem consequências para as populações atingidas. Tudo isso sem a mínima garantia aos direitos, principalmente os das mulheres.

É por isso que elas lutam, é por isso que ser atingida é sinônimo de luta. Mulheres atingidas por barragens são resistência e entre todas as dificuldades, garantem na luta o acesso aos seus direitos, que elas sabem muito bem quais são.

O lucro não vale a vida!

Izabella Bontempo é militante do Movimento dos Atingidos por Barragens.

Edição: Elis Almeida